Hinter fremden Türen - Kristín Marja Baldursdóttir
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Hinter fremden Türen von Kristín Marja Baldursdóttir

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"Hinter fremden Türen" escrito por Kristin Marja Baldursdóttir, Uma "Gapy Hauptmann" islandesa, mas infinitamente melhor...

Uma mulher-a-dias em crise de identidade ou uma Cinderella islandesa…

Alguns leitores assíduos deste blog exigiram-me que escreve-se também em português… Não é fácil agradar a gregos e a troianos!

Cá vai então a minha opinião sobre o livro da “filha do Baldur” ”Atrás de portas alheias” (tradução da minha lavra J ) na língua de Camões. Não é provável que este livro alguma vez venha a ser vertido para a língua de Camões, daí que eu deixe aqui a minha contribuição para que o possam querer ler. Pode ser que algum dia algum editor português o queira publicar. É mais provável que venha a ver a luz do dia em inglês do que em português. Aviso à navegação: existem alguns excertos do livro em alemão (antes em alemão que em islandês eh eh eh), mas com uma tradução livre em português para aqueles que não dominam o Alemão. Tanto quanto sei nenhum livro da Baldursdöttir foi alguma vez traduzido para inglês. Mas dado o sucesso que tem tido em toda a Escandinávia e na Alemanha, não é difícil prever que esteja na calha uma tradução para a língua de Shakespeare.

Kolfinna Karlsdottir (filha de “Karl”), a personagem principal, apenas almejava uma coisa: chegar aos 80 anos e ter gozado uma vida boa [página 315:”(…)Das war das Einzige, wonach sie sich sehnte. Achtzig zu werden und zu einer jungen Frau sagen zu können: Mein ganzes Leben ist schön gewesen.”].

Vamos começar pelo princípio. Esta personagem islandesa, prestes a fazer 30 anos, muda-se de armas e bagagens para casa da sua mãe, após ter sido despedida e de ter simultaneamente terminado a sua relação de 5 anos com o seu companheiro, que era um bêbado de primeira apanha.
Frustrada e envolta em apatia passa parte dos seus dias a vegetar em frente à TV e a outra parte a trabalhar como mulher-a-dias em casa de 4 personagens: uma velha senhora, um advogado de sucesso, uma famosa cantora de ópera e um investigador. Os estilos de vida, a riqueza e o “savoir-vivre” destes quatro personagens fascinam-na e após algum tempo “atrás destas portas alheias” ela acredita ter encontrado a Boa-Vida. Sob a influência dos seus ricos patrões ela começa a mudar a sua aparência, começa a ocupar-se de assuntos relacionados com dinheiro e cultura. O único problema é que continuava a faltar uma peça importante neste arsenal de mudança: ainda não acreditava em si mesma. Fundamental para quem quer dar a volta por cima. Nesta altura penso que adivinho o que vos vai na alma. Mais um livro de “gajas”. Nada mais falso! Gaby Hauptmann está a léguas de distância deste universo…

Kolfinna Karlsdottir sente que foi extremamente deprimente crescer sem ter qualquer tipo de talento. Este livro mostra, entre outras coisas, que é possível escolher outro caminho, tornando essa escolha também nossa. A procura da Sorte, do Sentido das Coisas, estão contidas numa obra cheia de humor e vida. Também se pode discernir uma crítica feroz à sociedade islandesa no meio de tanto humor (vide meu “post” anterior sobre o escritor Arnaldur Indridason, também islandês). Achei muita piada a alguma passagens, em que a autora pretendia retratar algumas das idiossincrasias da cultura e das gentes islandesas. Vejam-se as seguintes passagens :

Página 94:

““Du hast irgendwann gesagt, dass das hier ein Saustall sei. Kannst du mir sagen wieso?”
Sie starrte ihn mit offenem Mund an, rief sich tasch ihre früheren Begegnungen ins Gedächtnis und fühlte sich verlegen und beschämt.(…) Erst wollte sie die Worte, die ihr damals in ihrer Wut herausgerutscht waren, möglichst herunterspielen, aber dann fiel ihr der Gestank wieder ein und wie sie gegen den Brechreiz hatte ankämpfen müssen.
“Du pinkelst daneben”, sagte sie grimmig.”

(“Disseste algures que isto era uma pocilga. Podes concretizar?”
Ela lembrando-se dos seus encontros anteriores e sentindo-se embaraçada e envergonhada olhou para ele espantada. Primeiro quis minimizar o mais possível as palavras que lhe tinham escapado antes num acesso de fúria, mas depois notou o pivete e a luta que teve de travar com a náusea.
"Mijas ao lado," respondeu ela sombriamente.

Se calhar não é só na Islândia…! Agora já se vendem umas luzinhas que podemos colocar no bordo da sanita e que evitam este tipo de inconveniente… eh eh eh

Página 116:

““Sie hatte schon öfter davon geträumt, einmal Zug zu fahren, in einem Zug zu essen und zu schlafen, und phantasierte sich in einen der Spielzeugzüge hinein””

(“Ela tinha sonhado já com o facto, de andar pela primeira vez de comboio, comer e dormir num comboio e imaginar-se num dos comboios-brinquedo”).

Porque razão sonha a Kolfinna com comboios como se nunca tivesse visto nenhum? Porque de facto ela nunca viu comboios ao vivo. Na Islândia não há linhas de comboio! (In Insland gibt es keine Einsenbahnen!!)

Página 156 e 157:

““Já, Kolfinna, jetzt stehen die Frühjahrsarbeiten im Garten an, nicht mehr und nicht weniger, ich kann dir gar nicht beschreiben, wie wundervoll es ist, bei solchem Wetter früh aufzuwachen und gleich in den Garten zu gehen. Bist du nicht auch glücklich, dass nun endlich der Frühling da ist?”
“Ist der Goldregenpfeifer schon da?”
“In den Nachrichten wurde davon noch nichts gesagt.””

(“Sim, Kolfinna há trabalho a fazer no quintal, nem mais nem menos, e eu nem consigo descrever, quão maravilhoso é, levantar-me com este tempo e ir para o quintal. Não estás satisfeita que a Primavera tenha finalmente chegado?”
“O xxxx (pássaro) já voltou?”
“Sobre isso ainda não apareceu nada nas notícias”.)

Não faço ideia do que seja um “Goldregenpfeifer” (tenho de ir ao dicionário…), mas é um pássaro que volta à Islândia quando a Primavera está à porta. O que é estranho é que isto seja objecto de um qualquer Telejornal…
Para qualquer islandês que se preze, mais importante que o início oficial da Primavera é a chegada do “Goldregenpfeifer”. Assim que estes pássaros são avistados na Islândia, são sempre notícia em todos os Telejornais. É preciso não esquecer que os Islandeses vivem debaixo de neve grande parte do ano.

Página 183:

“Sie blickte ihn nachdenklich und mit offenem Mund an und beschloss, ihm nicht auf die Nase zu binden, dass sie hauptsächlich Katastrophenmeldungen und die Klatschspalten las. Die Nachrichten im Fernsehen sah sie sich nur ganz selten an, weil sich da meist alle zum Fisch drehte.”

(Ela olhou para ele pensativamente e de boca escancarada e decidiu não lhe dizer que o que ela realmente lia eram notícias sensacionalistas, assim como a coluna dos mexericos. As notícias na TV só via de vez em quando, dado que a maior parte das vezes eram sobre Peixe”)

Como é fácil de entender, a principal e quase única indústria islandesa é a pesca. Uma grande percentagem de islandeses trabalha na indústria pesqueira. Qualquer assunto relacionado com a pesca é quase sempre abertura de Telejornal devido à grande dependência económica da Islândia relativamente à pesca.

Tenho de reconhecer que fui também surpreendido pelo final desta obra. Não apenas pelo final, mas também por causa dele, vale a pena definitivamente ler este romance. Tenho de agradecer ao Wolfgang ter-me indicado este livro como obrigatório. Mostra uma tendência nítida de fugir aos estereótipos do romance escandinavo (policial e “mainstream”, que inunda as estantes de qualquer livraria alemã que se preze…)

Fiquei com vontade de ler os dois primeiros livros escritos pela Baldursdóttir: “Kühl graut der Morgen”(Manhã cinzenta fria) e “Möwengelächter” (Riso das gaivotas). Vou encomendar e lê-los durante as férias, pois merecem ser degustados com tempo e com bom tempo.

Não se surpreendam que a Islândia possa apresentar autores de qualidade. Já teve um prémio Nobel da Literatura : Halldór Laxness. Este sim tem imensas traduções em várias línguas, inclusive em português (“Gente Independente”). Pessoalmente encontro bastantes semelhanças estilísticas entre a nossa Lídia Jorge e o Halldór Laxness. Mas isso fica para um outro “post”…